Erva Daninha

Crianças Doentes Não Devem Estar na Escola - o erro do sistema

Há um ditado que me acompanha sempre que penso em saúde infantil: “é melhor prevenir do que remediar”. É uma ideia profundamente alinhada com Emmi Pikler, que via o bebé — e mais tarde a criança — como um ser competente, cuja saúde se constrói todos os dias através de atenção, observação e respeito pelo ritmo próprio. E, no entanto, parece que nos afastámos muito desta forma de olhar para o corpo.

Nos últimos anos, normalizámos qualquer coisa que Pikler consideraria impensável: crianças doentes a serem levadas para a escola porque “não se pode faltar”, “é só uma constipação” ou “a febre passou com o xarope”. Tornou-se cultural — como se a recuperação pudesse ser acelerada à força, como se o descanso fosse opcional, como se o corpo tivesse de se adaptar ao calendário social e não o contrário.

Mas quando observamos uma criança doente com o mesmo cuidado atento que Pikler nos ensinou, percebemos algo simples e profundo: um corpo doente precisa de tempo, calma, colo, e não de cumprir horários. Precisa de cuidado real — não de urgências disfarçadas, não de sintomas silenciados por medicamentos para “aguentar o dia”, não de presença escolar transformada em prova de resistência.

Este artigo não é uma lição de moral aos pais. É um convite para voltarmos ao essencial: a saúde das crianças constrói-se todos os dias, e estragamo-la todas as vezes que ignoramos os sinais que o corpo dá. Este artigo nasce dessa inquietação — e da urgência de repensarmos o sistema que nos empurra a fazer precisamente aquilo que sabemos que, no fundo, não é cuidar. Deixar bebés ou crianças com febre ou outros sintomas na creche, jardim de infantário ou escola [a partir de agora generalizados por escola] não só prejudica a recuperação como também coloca em risco colegas, professores e toda a comunidade escolar. Ao mesmo tempo, este comportamento perpetua uma cultura onde a medicação rápida se sobrepõe ao cuidado genuíno, e onde o sistema — escolas, Estado e mesmo a indústria farmacêutica — muitas vezes favorecem a instituição em detrimento da saúde.

Este artigo explora por que cuidar deve vir antes de aprender, como o sistema atual falha em proteger crianças, e o que é necessário para que pais, escolas e Estado assumam juntos a responsabilidade que lhes cabe. 

A Ilusão “Só Uma Constipação"

À primeira vista, pode parecer um problema individual: “Os pais deviam ficar com o filho quando ele está doente”. Mas, na realidade, existe um sistema por trás que pressiona as famílias a manter as crianças na escola, ainda que não estejam bem. É uma ilusão tão difundida quanto perigosa: aquela “constipação leve” muitas vezes é promovida por uma estrutura que prefere medicar do que cuidar.

Muitos pais sentem que não têm escolha. Tirar vários dias para cuidar de um filho doente significa, para alguns, riscos no emprego ou no rendimento familiar. A lei portuguesa prevê até 30 dias por ano para “assistência a filho” para menores de 12 anos. Mesmo assim, esse direito nem sempre é exercido por falta de segurança no trabalho ou por medo de consequências. Além disso, o subsídio da Segurança Social varia conforme a situação: para assistências a filhos doentes, pode haver limitações.

Enquanto muitos pais lutam para conciliar trabalho e cuidados, o sistema de saúde e escolar não dá a devida prioridade ao cuidado efetivo. O sistema não está preparado para cuidar — só para receitar. Isso força os pais a tomar decisões difíceis: ou mandam a criança para a escola para “não faltar demais”, ou “medicam para mascarar os sintomas”.

Quem Lucra com a Medicação Infantil? Os Interesses da Indústria Farmacêutica

Não podemos ignorar os interesses poderosos por trás deste cenário. A indústria farmacêutica tem um papel central. Há um mercado significativo em Portugal — o mercado farmacêutico cresceu, segundo a IQVIA, tanto em volume como em valor.

Além disso, existe uma relação entre a medicina privada e a prescrição. Quando os cuidados primários públicos são mais lentos ou inacessíveis, as famílias recorrem à medicina privada, onde a resolução pode vir por prescrição rápida — e muitas vezes por medicação. O incentivo à prescrição não é meramente clínico, mas também comercial.

A influência da indústria médica sobre a prática clínica não é ficção. Há evidências de que a indústria farmacêutica molda, direta ou indiretamente, pesquisas, educação médica, diretrizes terapêuticas e até a prescrição. Em Portugal, as leis regulatórias existem — por exemplo, o Código dos Medicamentos regula a interação entre farmácias, vendedores e profissionais de saúde. Mas isso não elimina totalmente o conflito de interesses.

O Perigo de “Mascarar Sintomas” com Medicamentos

dministrar antipiréticos ou outros medicamentos para baixar a febre e depois mandar a criança para a escola cria uma falsa ilusão de saúde. A febre está sob controlo? Sim — pode estar. Mas isso não significa que a criança está curada ou que deixou de ser contagiosa. Esse “controlo momentâneo” por medicação é perigoso por várias razões:
Transmissão invisível: A criança pode continuar a espalhar vírus mesmo sem sintomas aparentes, porque a febre está silenciada pela medicação.
Resistência a medicamentos: No caso de antibióticos, o uso inapropriado ou precoce contribui para a resistência antimicrobiana — um problema global de saúde. 
Negligência do cuidado real: Quando a primeira linha é sempre “dar um comprimido para voltar à escola”, pode-se negligenciar a necessidade de descanso, hidratação, monitorização e acompanhamento clínico adequado.

A Falsidade da “Volta à Escola Sem Febre”

Muito usado como argumento pelas escolas ou mesmo por alguns pais: “está sem febre, pode voltar”. A recomendação geral é 24 horas sem febre. Mas o que muitas vezes está por detrás disso é que a febre está a ser controlada por medicação, e não que a criança está totalmente recuperada e fora do período contagioso. Devolver uma criança a um ambiente escolar apenas porque a febre baixou graças a medicamentos é uma falácia que coloca os interesses da presença física acima da saúde de longo prazo — da criança e do coletivo. É uma política de aparência, não de substância.

O Que Necessita um Corpo Doente — Ensinando o Autocuidado

Quando uma criança está doente, o que ela mais precisa não é estar na escola, mas cuidados adequados para recuperar. Isso inclui:

Descanso suficiente: o corpo precisa de energia para combater a infeção; a aprendizagem é secundária ao bem-estar físico nesse momento.

Hidratação e alimentação apropriada: Líquidos, frutas, sopas e refeições leves ajudam na recuperação e fortalecem o sistema imunitário.

Acompanhamento clínico adequado: Identificar corretamente a doença e decidir se é necessário medicação ou apenas observação, evitando tratamentos desnecessários que mascaram sintomas.

Ambiente saudável e seguro: Ar limpo, conforto, ausência de sobrecarga emocional ou pressão externa e, sobretudo, um adulto de referência a dar-lhe atenção privilegiada.

Ensinar o autocuidado desde cedo é essencial:

• Explicar às crianças que respeitar os sinais do corpo não é fraqueza, mas inteligência e responsabilidade consigo próprias e com os outros.

• Mostrar que repouso e recuperação são parte da cura, não impedimentos à aprendizagem — a aprendizagem continua quando o corpo está pronto.

• Incentivar hábitos de higiene, como lavar as mãos, espirrar para o cotovelo, usar lenços descartáveis e evitar contacto direto quando se está doente, promovendo responsabilidade coletiva.

O autocuidado não é apenas físico: é também mental e social. Uma criança que aprende a ouvir o seu corpo desenvolve resiliência e consciência sobre a sua saúde, reduzindo o risco de contágios e criando uma cultura de cuidado que beneficia toda a comunidade escolar.

O Que Precisamos Mudar — Lutar por um Sistema que Cuida, Não Só Medica

Para romper este ciclo, não basta responsabilidade individual: é necessária ação sistémica. Eis por onde devemos lutar:

Políticas escolares mais humanas
• Protocolos claros e exigentes para crianças doentes: isolamento confortável, monitorização, ventilação, áreas de descanso.
• Investimento em profissionais de saúde nas escolas (enfermeiros, médicos escolares) para diagnosticar, acompanhar e decidir se a criança deve permanecer ou voltar para casa.

Licenças e apoio familiar justas
• Reforçar o apoio estatal para pais que cuidam de filhos doentes, garantindo que possam faltar ao trabalho sem penalizações.
• Flexibilização do trabalho (teletrabalho, horários adaptados) para quem precisa cuidar de crianças doentes.

Transparência e regulação da indústria farmacêutica
• Exigir maior transparência na colaboração entre a indústria farmacêutica e os profissionais de saúde.
• Promover uma prescrição mais criteriosa, baseada em necessidades clínicas, não em interesses comerciais.

Educação sanitária 
• Ensinar pais, professores e crianças sobre os riscos de “mascarar sintomas” com medicação.
• Promover campanhas de saúde pública sobre quando é seguro voltar à escola, quando a medicação não substitui o descanso.

Responsabilidade individual
• as famílias devem assumir a responsabilidade de prestar assistência e atenção às crianças doentes. Aumentar a rede de apoio, negociar com o patronato, pedir ajuda prática ou financeira, tudo isto pode contribuir para uma vivência mais saudável das instituições escolares. Para além disto, e não menos importante, pervenir a doença com alimentação e hábitos saudáveis, relações seguras e educação pelo cuidado. 

Conclusão - a responsabilidade partilhada

Pais, escolas e Estado têm papéis distintos, mas complementares:

Pais: Devem estar atentos aos sinais de doença, garantir cuidados adequados e ter coragem de ficar em casa quando necessário, sem sentir culpa ou pressão externa.

Escolas: Devem implementar protocolos claros, fornecer ambientes seguros e saudáveis, e apoiar famílias quando a criança está doente.

Estado: Tem de garantir políticas que apoiem os pais (licenças, subsídios), reforcem recursos nas escolas (profissionais de saúde, ventilação, monitorização) e promovam uma regulamentação transparente da prescrição de medicamentos.

Só com esta responsabilidade partilhada é possível proteger a saúde das crianças, reduzir o risco de contágios e criar um sistema verdadeiramente humano — onde cuidar de um filho doente não é um peso, mas uma prioridade reconhecida. 

Agora, seja qual for o teu papel neste cenário, vais assumir a responsabilidade?

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Sobre mim

Sou mãe de duas meninas e designer de livros, com uma paixão profunda pela infância e pelos direitos das crianças. Formadora certificada na pedagogia Pikler-Lóczy, dedico-me há anos a apoiar famílias e profissionais a olhar os bebés com respeito e confiança.